Eu tenho o dom

Faz um tempo que tenho grunhido sempre que preciso pegar alguma coisa do chão. A barriga com meu filho dentro tem se tornado um bocado pesada, e quando me agacho, mesmo que abra os joelhos como se fosse um sapo, a bolsa eleva-se o suficiente para pressionar o conteúdo do meu estômago pelo esôfago acima. É muito, muito, muito desagradável.

Contudo, ainda que deseje manter-me em pé a maior parte do tempo possível, as coisas seguem teimosamente para o chão. E lá vou eu, agachar-me e passar mal e grunhir, mais vezes do que o normal.

Quando essas coisas em queda não quebram, menos mal. Porém, por algum milagre mal-compreendido da ciência, objetos com alto potencial de esfacelamento criam vida quando os toco. Uma vida breve, pois desejosa de suicídio.

Estava eu secando e guardando a louça, quando o copo – a categoria sem dúvida mais revoltada – escalou meus dedos e saltou do dorso de minha mão como se esta fosse um trampolim. Antes que pudesse fazer algo para detê-lo, ele saltou em direção à morte.

Olhei para o lamentável conjunto de cacos espalhados pela cozinha e reclamei:
- É o que digo. Quanto menos quero me abaixar, mais essas coisas acontecem.
E fui buscar a vassoura.
A voz de meu marido chegou do escritório:
- O que você quebrou agora, liebchen?
- Um copo. – resmunguei, de má vontade.
- Que copo?
Existem alguns cujo design os torna importantes. Eu os manuseio minimamente, e com o máximo de concentração.
- Um simples. De extrato de tomate, creio.
Pausa. Termino de varrer e vou buscar a pá.
- Sabe o mais engraçado? – retoma meu marido – Eu nunca quebrei nada desde que nos mudamos. – e a grande conclusão – Você tem o dom, amorzinho.

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