“Totó, acho que não estamos mais no Kansas.” Assim como Dorothy é levada por um tornado ao maravilhoso Mundo de Oz, os novos pais sentem que um furacão passou pelo seu velho mundo. Mas essa revolução tem tijolos de ouro para compensar
Por Denise Bobadilha, mãe de Arthur, e Larissa Purvinni, mãe de Carol e Duda
As duas linhas do exame positivo marcam uma fronteira bem clara entre a vida que você tinha antes e a que você passa a ter agora. Não, as coisas não VÃO mudar completamente. Elas JÁ mudaram. Agora não é mais só você. Ou só você e seu companheiro. Ou companheira, se você é o pai. Sim, porque, mesmo que o filho não esteja na sua barriga, o mundo já se divide entre AF (antes dos filhos) e DF (depois dos filhos) para os dois. Bem-vindos ao clube. Tem outras vidas dependendo de você agora. Sentadinhas no banco de trás, elas ocupam o primeiro lugar na lista de prioridades. Bom, pelo menos tenho nove meses para me preparar para a revolução, você pensa. É, a natureza nos dá esse tempo, mas a verdade é uma só: por mais que a gente ensaie, treino é treino e jogo é jogo. Ter um filho muda sua vida para sempre e não é possível preparar-se inteiramente para isso. As semanas passam e parece que está tudo pronto: quarto decorado, roupinhas lavadas e dobradas, mala arrumada. Mas a verdade é que não está. Assim como o adolescente que se preocupa mais com o vestibular do que com a carreira escolhida, os futuros pais se aprontam para o parto, mas estão longe de saber o que REALMENTE vem pela frente.
“Quanto mais os pais planejam as coisas, mais criam a idéia de um filho que não existe”, afirma a psicóloga e escritora Rosely Sayão, mãe de Camila e Fábio. “É preciso esperar o nascimento do bebê para ver o tipo de comunicação que irá se estabelecer, como ele se mostra ao mundo e aí, sim, planejar”, diz. Ou seja, o melhor plano é estar preparado para mudar de plano. As mães – e pais também, com certeza – mais flexíveis, que têm capacidade de aprender com a experiência, vivem a maternidade mais tranqüilamente, concluiu a psicóloga Eliana Marcello De Felice, mãe de Mariana e Carolina, em sua tese de doutorado, em que acompanhou 12 grávidas e, depois, mães recentes e que virou o livro Vivências da Maternidade e Suas Consequências para o Desenvolvimento Psicológico do Bebê. “Essas mulheres têm uma maleabilidade maior para se adaptar a cada novo passo, conseguindo compreender o filho em cada momento, transformando-se e crescendo como pessoa a cada nova situação desafiadora”, resume.
Ah, é lógico, você pode pensar. Sim, sim, sim, mas quem disse que a gente consegue ser lógico com tanta coisa acontecendo, atropelando o que a gente imaginava que ia ser? Você pode achar que seria do tipo que jogaria a criança nas costas e escalaria o Nepal no primeiro mês, mas se pegar às voltas com tantos detalhes, fraldinhas, paninhos, cadê o lenço umedecido que ninguém pôs na sacoooola!!!!!!!!, que demora dois meses só para ir até a esquina com o rebento. Relaxe. Ria de você mesmo. Se o lenço umedecido faltar, improvise ou peça para alguém dar um pulo na farmácia mais próxima. Além de não ser excessivamente rígida, é preciso pedir ajuda seeeeeempre. Aquela noção de independência que tanto gostamos de cultivar virou história. Fora o fato de ter um ser dependendo de você, é sua vez de também depender de muita gente: babá, escola, avós, tias, amigos… Segundo Eliana, as mães com mais dificuldades são as que acabam se isolando. “Elas acham que precisam dar conta de tudo sozinhas. E se sentem culpadas por não se sentir no paraíso, como se espera. É preciso lembrar que conflito faz parte de toda a experiência humana”, tranquiliza.
E só a experiência é que irá apontar os novos rumos de sua vida, de seu companheiro e do novo membro da família. Algumas coisas são previsíveis – em geral, a mulher fica mais paciente e tolerante e deixa de ter o tempo só para ela; as vidas doméstica e social do casal ficam mais atribuladas. Mas vai além. “É uma mudança imensa, uma mudança de lugar no mundo e na geração”, diz a psicanalista Regina Orth de Aragão, mãe de Aurélio e Emanoel, presidente da Abebê (Associação Brasileira de Estudos sobre o Bebê). A partir de agora, você deixa de ser só filha, seu marido idem. E passam a fazer parte de um outro grupo, o de pais. Aquele que leva as crianças que choram no avião e do qual os não-pais geralmente não querem nem chegar perto.
Por outro lado, a gravidez pode ser um momento para que você se reconcilie com seu passado. Você pode se pegar imaginando como a maneira com que sua mãe o criou afetou seu jeito de ser hoje. Assumindo cada vez mais o papel de mãe ou pai, pode entender melhor sua mãe ou seu pai. Para as mulheres, embora seja impossível antecipar como será a sua experiência como mãe, uma boa pista pode ser dada a partir da relação com a própria mãe, não apenas agora que você é uma mulher adulta, mas toda a experiência anterior. Por mais que a gente diga que vai fazer tudo diferente, pode se pegar repetindo os mesmos “erros” (ou o que achamos que foram erros e podemos descobrir, pela experiência, que foi a maneira possível de lidar com uma série de situações).
CONSULTORIA: ELIANA DE FELICE, PSICÓLOGA. TEL. (11) 3088-8745. ELIANA POMMÉ, PSICOTERAPEUTA, TEL. (11) 3813-2261. REGINA ORTH DE ARAGÃO, PSICANALISTA, TEL. (61) 3273-8746. ROSELY SAYÃO, PSICÓLOGA, WWW.BLOGDAROSELYSAYAO.BLOG.UOL.COM.BR
fonte: Revista Pais e Filhos – http://www.revistapaisefilhos.com.br/comportamento-gravidez/274
No Comments