Depois de ler o comentário da Cláudia Trevisan sobre um prato chinês que consiste em apresentar camarões vivos no espeto ao freguês, para que ele mesmo possa fritá-lo, tive um assomo de repulsa e revolta contra o que me pareceu um evidente barbarismo.
Era praticamente o mesmo que empalar uma pessoa, e essa prática, considerada uma tortura, gera ojeriza a qualquer um, desde que mentalmente sadio, quando é um humano que está afundando no espeto dos baixios para os altios. Isso não deveria causar o mesmo quanto aos pobres crustáceos?
Protestei com meu marido. Para meu assombro, ele me respondeu que considerava a prática bastante humana.
Após aguentar impassível minha tsunâmica resposta, redarguiu:
- O que você acha mais humano? Deixar os camarões, os peixes, e todo o resto agonizando fora da água, asfixiados, como é a nossa prática, ou espetá-los eficientemente, detonando-os logo a ponto de não sentirem mais nada?
O argumento me abalou, mas insisti:
- Mas eles estavam vivos!
- Eles estavam se mexendo. – retificou ele – Você sabe como funciona. Quando se corta a cabeça da galinha e ela sai andando ainda, quer dizer que esteja viva?
Fiquei quieta. Era um bom ponto. Talvez os camarões não estivessem vivos, afinal.
- Além do mais, não acho que comprar a carne no açougue me exima da culpa da morte do boi. – ele continuou, peremptório – Alguém precisa dizer a esta mulher (a Trevisan) que, se ela sentiu culpa por comer os camarões no espeto, porque ela não sente também quando os come à milanesa? Só porque outra pessoa os matou? Então quer dizer que um mandante do crime é inocente, apenas porque não apertou o gatilho? Que bobagem!
Continuei quieta, lembrando do horror que senti na primeira vez que fui ver o arrasto de rede na praia. Todos aqueles peixes abrindo e fechando as bocas frenéticos, sendo que mais tarde fui entender que eles tentavam respirar um oxigênio que não lhes era suficiente. Era o mesmo que me atirar na água e me deixar morrer afogada. Uma morte lenta e dolorosa.
A peixaria não deixa de ser os dejetos de uma Auschwitz marinha. Todos aqueles animais empilhados podem ser sobrepostos às fotos dos corpos dos judeus empilhados. A diferença é que não comeremos os judeus.
E isso não me priva de salivar diante de um peixe grelhado.
Ficamos pensando nas barbáries dos chineses, mas nós somos capazes de lançar à água fervente um punhado de caranguejos ao mesmo tempo em que salivamos. A morte dos caranguejos é rápida? Experimente assistir e ateste por si mesmo.
Acredito ser mais confortável comer um animal que tenha sido morto por outrem. Contudo, não posso condenar a atitude daqueles que matam na hora e o comem. É mais honesto, menos hipócrita, mais consciente. Mais insensível? Não sei. Nós não estamos sendo insensíveis também, comendo nossos cadáveres?
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