2010 entrou bombando, decidido a mudar minha vida pelo avesso. Conversou com os anos anteriores, viu que estava tudo muito no marasmo, e avisou que ia chegar e ia arrasar.
A primeira coisa que fez foi preparar o terreno. Conversou com o 2009, que já estava cansado, lá por dezembro, doido para se aposentar, e cochichou-lhe um troço no ouvido.
2009 decidiu colaborar e atrasou minha menstruação.
Achei estranho, mas ok, quem toma pílula há um tempinho fica mesmo meio desregulada. Mas aí alguma coisa soprou no ouvido do meu marido e ele me veio com essa:
- Olha, não toma.
- Hummmmm?
- Não toma a pílula este mês.
- Hein?
Ele estava sério. Olhava nos meus olhos com aquela tranquila firmeza que faz parte de seu caráter – e pela qual me desfaço em suspiros e palpitações – e repetiu:
- Você vinha esquecendo de tomar alguns dias, não vinha?
Encabulei:
- É… meu cérebro, sacomoé… se não tomo na hora que acordo depois não sei se tomei… aí tenho medo de overdose de hormônios, então…
- Então. Não tome. Espere descer.
Fiquei com um grande ponto de interrogação na cabeça mas vá lá, não tomei, esperei descer.
Mas não desceu. Chegou Natal, passou Natal, e não desceu.
E tinha uns adicionais: a comida não me descia direito, eu me sentia fraquinha, desanimada, desmentalizada. Falei pro schatzie, ele olhou direto para a minha barriga.
Eu disse, quase esquivando a dita: deve ser a anemia. Preciso fazer exame de sangue.
Mas ele continuou olhando desconfiado para a minha barriga.
Junto a isso, estávamos de mudança. Aquela frase “quem casa quer casa” é de uma sabedoria incontestável. Depois de um tempo morando com meus pais, era hora de sair do ninho – nem que fosse para a árvore ao lado.
Muda móveis, muda tralha, muda tudo, e eu enjoadaça, fraca, desanimada. Tentando fingir que estava tudo ok comigo.
Mudados antes do réveillon, arriei no sofá e dormi um dia inteiro. Quando acordei, schatzie me olhava. E declarou:
- Acho que você está grávida.
Eu ri. Ele não.
- Estou falando sério.
Eu via que estava. Eu tinha rido de medo.
Fomos para a farmácia e compramos o teste. Deu positivo.
Ficamos olhando um para o outro dentro do banheiro.
Não sei bem o que senti. Acho que todo o meu ser fez uma pausa, como costuma fazer diante de novidades inesperadas.
(Que redundância! se é novidade, é claro que é inesperado. Mas você me entendeu.)
Schatzie emitiu um longo suspiro e disse:
- Bem, preciso ralar mais.
Enquanto eu passei a pensar em como dizer a meus pais.
Fizemos isso na hora zero de 2010. Erguemos as taças de champanhe para o brinde e na hora do “Feliz Ano Novo!”, dissemos:
- Vocês vão ser vovós!
As taças continuaram congeladas no ar, enquanto os fogos estouravam. Os sorrisos e os olhares de meus pais ficaram em suspenso um instante, e então minha mãe gritou:
- Que coisa boa!
E nos abraçou.
Meu pai coçou o topo da cabeça, tomou a taça de um só gole, sentou-se, suspirou, coçou de novo o topo da cabeça, e olhou para nós, com um sorriso esquisito e torto.
- É, acho que já estava mesmo na hora de eu ser avô.
Depois disso, passaram a nos visitar todos os dias, para checar. Eu, meu pai e o schatzie saíamos atrás de coisas que faltavam para a casa – como o fogão -, e numa dessas voltas, pus meu café da manhã para fora da janela do carro do pai.
- Você vai ao médico quando? – ele inquiriu, apavorado.
Marquei minha ginecologista para o fim de janeiro.
Ela passou uma bronca: eu deveria ter ido ali há séculos (acontece que ela estava de férias, mas não comentei), eu deveria estar tomando ácido fólico há séculos (aí apavorei, porque esse tal ácido é importante para a formação do cordão nervoso – ou seja, do sistema nervoso futuro da criança), eu deveria ter feito o ultrassom há séculos.
Depois ela ficou feliz. Pegou seu calculador de parto – uma espécie de calendário redondo, com um dentro e outro fora, cheio de números minúsculos, que giram e se combinam – e perguntou:
- Quando foi sua última menstruação?
- Em novembro, porque dezembro não veio.
Girou os círculozinhos e declarou:
- Você está na 13ª semana de gravidez. E vai parir aproximadamente no dia 12 de agosto.
- Três meses? – eu disse, estupefata.
- Praticamente. Estamos em janeiro. Você não menstruou em dezembro. Você ficou grávida entre novembro e dezembro, querida.
Fiquei tentando me acostumar com a ideia, enquanto ela passava mil requisições e recomendações.
Fiz o ultrassom no início de fevereiro. Estava preocupada com a tal translucência nucal, que é um espaço na nuca do bebê que, dependendo de sua espessura, dita se virá saudável ou não.
No ultrassom, ele se tornou finalmente real.
Ali estava ele, contraste cinza-pálido contra fundo preto, com duas perninhas, dois bracinhos, mãozinhas expressivas, dois hemisférios cerebrais, duas órbitas, uma barriguinha estufadinha, cheia de líquido, coluna formada, costelinhas, coraçãozinho batendo. E se movendo, se movendo pra caramba.
A razão dos meus enjoos estava ali, e era simplesmente de arrancar lágrimas de tão lindo.
A médica penou para conseguir visualizar a translucência nucal. Viu o nariz primeiro:
- O osso do nariz está perfeito. Sem risco de síndrome de Down.
Respirei de alívio. Tenho trinta anos, afinal. A probabilidade disso ocorrer em uma maternidade da minha idade não é muito baixa.
Longo tempo depois, após pedir para que eu tossisse umas quinhentas vezes, e de muito resmungar “vira bebê!”, conseguiu capturar a nuca.
Mediu a translucência.
Estava perfeita. Respirei de novo.
- Um bebê saudável de 11 centímetros, com 14 semanas. – anunciou a médica, sorridente.
- Menino ou menina? – perguntou schatzie.
Ainda não era possível ver.

Matou a minha curiosidade!!!… quase fiz uma pergunta sobre a futura mamãe no “vice-versa”…rsss Cuide-se bem! bjs