Escritor não é brinde

Convidar um escritor para conversar com os leitores de seus livros em uma escola é uma atitude boa para todos os envolvidos: para os leitores, que ampliam sua concepção sobre o processo de escrita, leitura e a profissão literária; para os professores, que contam com um estímulo extra na atividade pedagógica; para os vendedores, que têm o ingresso do produto-livro facilitado com a promessa da ida do autor; para as editoras, que têm seu lucro aumentado junto com a divulgação de um livro de seu catálogo.

Mas e para o autor? Afora conhecer seus leitores e a opinão deles sobre seus escritos, que outra vantagem tem ele com essas visitações?

Para muitos, a resposta vem rápida: a adoção do livro na escola implica mais livros vendidos. Se o autor se dispõe a ir, a escola continua adotando seu livro, e ele recebe mais ainda.

Esse tipo de crença considera que o autor:

a) não trabalha, tendo portanto bastante tempo livre para ir às escolas em horários como meio da tarde, meio da manhã, ou mesmo todo um dia, durante a semana;

b) a escrita não é um trabalho sério, podendo ser interrompido sempre que necessário a outrem;

c) a venda de livros rende horrores para o escritor.

Precisamos então conscientizar as pessoas que um autor:

a) recebe, em média, 10% de direitos autorais, senão menos. Isso significa que, se você compra um livro por 20 reais, o autor receberá 2 reais por ele. Dinheirão, hein? Mais cinqüenta centavos e a gente paga uma passagem de ônibus. Com outro livro, mais cinqüenta centavos, pagamos a viagem de volta.

b) como escrever obviamente não sustenta a geladeira da casa, um escritor geralmente tem um emprego que exige o tempo e a dedicação de qualquer outro profissional. Isso quer dizer que ele trabalha dentro do horário comercial. Ou seja, quando ele sai para visitar uma escola, ele falta ao trabalho que lhe paga um salário de verdade todo mês a fim de ir a um outro que lhe dá 2 reais por livro a cada três meses. Uma troca tremendamente lucrativa, como você pode perceber.

c) como o escritor trabalha em outras atividades além da produção literária, nem sempre ele consegue tempo para sentar e dar vazão à sua criatividade. Por isso, quando consegue, detesta ser interrompido. E se ele não tem um secretário, ou mulher/marido/filhos/empregado que solucione por ele os outros problemas cotidianos, como limpar o banheiro e atender ao telefone, não há criatividade que agüente tanta interrupção!

É por isso que está tomando forma um movimento dos profissionais da escrita que tem como grito de guerra ESCRITOR NÃO É BRINDE!.

Oficializados durante o Encontro Nacional da Associação dos Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil – AEILIJ, ocorrido na 20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 16 de agosto de 2008, o mote e o movimento prevêem a defesa da valorização dos autores no que diz respeito às visitas escolares.

A respeito, o 11º Boletim da AEILIJ, de outubro de 2008, publicou o seguinte:

Queremos cada vez mais conscientizar a sociedade de que um autor, para visitar uma escola, deixa de trabalhar e de produzir, portanto essa visita escolar precisa ser remunerada, como já vem acontecendo no sul do país¹. Nem sempre existe uma venda de livros que justifique que um autor fique disponível por um dia inteiro (lembrando que os direitos autorais dessa venda só serão recebidos na prestação de contas seguinte²). É importante que todos saibam que um escritor ganha (em média) apenas 10% de direitos autorais e alguns nem isso. Os ilustradores, na maioria das vezes, nem recebem direitos autorais. Então, perguntamos: quanto vale um autor? Se quisermos formar um país leitor, temos que começar a valorizar o livro como um bem cultural e sobretudo aqueles que criam as histórias e as ilustrações. Não queremos ir às escolas só para fazer bonito ou por vaidade. Queremos conversar com leitores que tenham lido nossos livros e que possam dialogar de forma interessada conosco.

Anna Claudia Ramos, presidenta AEI-LIJ (Editorial)

¹ Principalmente no Rio Grande do Sul.
² Essa prestação de contas não é no mês seguinte. Ela é trimestral, o que significa que um escritor recebe seu “salário” a cada três meses.

Ainda neste Boletim, a AEILIJ recomenda aos escritores e ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, quando na apresentação em colégios e eventos, que cobrem pelo serviço.

Em muitos países, e mesmo em diversas praças brasileiras, já se avançou na compreensão de que apresentar-se para dar palestras, cursos e oficinas é um trabalho, ou seja, uma atividade profissional, e, como tal, o autor tem o direito de reivindicar que seja remunerada. (…) Há exceções, casos em que o volume da adoção compensa, ou de eventos beneficentes ou aqueles que o autor ache que deve reforçar doando seu trabalho. Mas será uma decisão sempre dele.

Com tais questões em vista, pergunto aos meus colegas de profissão e gosto: que decisão a AEILIJ de Santa Catarina tomará?

Considero aberto nosso fórum.

Luana von Linsingen
dando a cara para bater em 10 de dezembro de 2008.

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