No meio da madrugada o telefone toca. Nosso amigo levanta-se e atende:
- Alô, seu Carlos? Aqui é o Arnaldo, caseiro do seu sítio.
- Pois não, seu Arnaldo. Que posso fazer pelo senhor? Houve algum problema?
- Ah, eu só tô ligando para avisar pro sinhô que o seu papagaio morreu.
- Meu papagaio? Morreu? Aquele que ganhou o concurso? Puxa! Que desgraça! Gastei uma fortuna com aquele bicho! Mas, ele morreu de que?
- De comer carne estragada!
- Carne estragada? Quem fez essa maldade? Quem deu carne para ele?
- Ninguém. Ele comeu a de um dos cavalos mortos.
- Cavalos mortos? Que cavalos mortos, seu Arnaldo?
- Aqueles dois puros-sangues que o senhor tinha! Eles morreram de tanto puxar carroça d’água!
- Tá louco? Que carroça d’água?
- Para apagar o incêndio!
- Mas que incêndio, meu Deus?
- Na sua casa! Uma vela caiu, aí pegou fogo na cortina!
- Mas aí tem luz elétrica!!! Que vela era essa?
- Do velório!
- Que velório?
- Da sua mãe! Ela apareceu aqui sem avisar e eu dei um tiro nela pensando que era um ladrão!
Fim
nada sei sobre a vidinha do
pernilongo que mato indiferente
na parede.
mas desconfio que era a única
que ele tinha.
Caindo na real, 1984
Na primeira noite eles se aproximam
roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo o nosso medo
arranca-nos a voz da garganta.
E já não dizemos nada.
Trecho do poema publicado no livro ‘Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século’, organizado por José Nêumanne Pinto, pag. 218.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
A educação pela pedra (1966)
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…
Esconderijos do tempo (1980)
1/2 litro de álcool
1 pacote de cravo da Índia (10 gr)
1 vidro de óleo de nenê (100ml)
Deixe o cravo curtindo no álcool uns 4 dias agitando, cedo e de tarde;
Depois coloque o óleo corporal (pode ser de amêndoas, camomila, erva-doce, aloe vera).
Passe só uma gota no braço e pernas e o mosquito foge do cômodo. O cravo espanta formigas da cozinha e dos eletrônicos, espanta as pulgas dos animais.
O repelente evita que o mosquito sugue o sangue, assim, ele não consegue maturar os ovos e atrapalha a postura, vai diminuindo a proliferação. A comunidade toda tem de usar, como num mutirão. Não forneça sangue para o Aedes aegypti!
Ioshiko Nobukuni
nobukunister@gmail.com
A audiência entra no cinema deixando os números de seus telefones celulares. Ao contrário do que normalmente (e salutarmente) se exige nos cinemas, esses telefones devem permanecer ligados.
O filme começa, e a atriz, em maus lençóis, começa a pedir ajuda para o público, ligando para seus telefones, que a auxilia no trajeto a ser percorrido, a fim de que ela se safe do doido vilão.
É bem legal.
Outra ótima do J.P. Veiga:
1 Dunga
11 Sonecas
190 milhões de Zangados
As palavras não são minhas.
Amigos, esse negócio de ida a escolas é mesmo complicado… E a grande verdade é que nós, autores, não somos considerados como profissionais. Existe alguém que vá a um dentista, fique lá sendo atendido durante uma hora e saia sem pagar? E mesmo que fique muito menos tempo, a hora do profissional é paga do mesmo jeito. Bom, há uns bons anos eu “acordei” para essa realidade, quando um colégio grande daqui de Belo Horizonte, que tem várias unidades espalhadas pela cidade, deixou de adotar um livro meu. Por que? Porque eles queriam que eu fizesse umas dez oficinas nessas unidades todas, sem me pagar um tostão por isso. Alegação? A grande venda que estava sendo feita compensaria tudo. E o fato é que a divulgadora da editora tinha oferecido o meu trabalho em troca da adoção! A partir daí, adotei a seguinte norma: se for só para bater um papo com as crianças, ainda que sejam várias turmas (e contanto que eu não tenha que passar o dia na escola), eu não cobro nada. Mas qualquer coisa além disso, que exija uma preparação minha e ocupe boa parte do meu tempo, tem que ser remunerada sim. A menos, é claro, que a escola faça uma compra tal que o meu percentual equivalha a essa remuneração. Afinal, o escritor escreve, o ilustrador ilustra – estas são as suas atividades primeiras. Dar oficinas, cantar, dançar, plantar bananeira para “complementar” a divulgação de seu trabalho já é outra história.
Acho que devemos fincar pé mesmo ou nunca seremos devidamente valorizados.Angela Leite de Souza
http://www.caleidoscopio.art.br/angelaleite
Faz um tempo que tenho grunhido sempre que preciso pegar alguma coisa do chão. A barriga com meu filho dentro tem se tornado um bocado pesada, e quando me agacho, mesmo que abra os joelhos como se fosse um sapo, a bolsa eleva-se o suficiente para pressionar o conteúdo do meu estômago pelo esôfago acima. É muito, muito, muito desagradável.
Contudo, ainda que deseje manter-me em pé a maior parte do tempo possível, as coisas seguem teimosamente para o chão. E lá vou eu, agachar-me e passar mal e grunhir, mais vezes do que o normal.
Quando essas coisas em queda não quebram, menos mal. Porém, por algum milagre mal-compreendido da ciência, objetos com alto potencial de esfacelamento criam vida quando os toco. Uma vida breve, pois desejosa de suicídio.
Estava eu secando e guardando a louça, quando o copo – a categoria sem dúvida mais revoltada – escalou meus dedos e saltou do dorso de minha mão como se esta fosse um trampolim. Antes que pudesse fazer algo para detê-lo, ele saltou em direção à morte.
Olhei para o lamentável conjunto de cacos espalhados pela cozinha e reclamei:
- É o que digo. Quanto menos quero me abaixar, mais essas coisas acontecem.
E fui buscar a vassoura.
A voz de meu marido chegou do escritório:
- O que você quebrou agora, liebchen?
- Um copo. – resmunguei, de má vontade.
- Que copo?
Existem alguns cujo design os torna importantes. Eu os manuseio minimamente, e com o máximo de concentração.
- Um simples. De extrato de tomate, creio.
Pausa. Termino de varrer e vou buscar a pá.
- Sabe o mais engraçado? – retoma meu marido – Eu nunca quebrei nada desde que nos mudamos. – e a grande conclusão – Você tem o dom, amorzinho.
Bilhetinhos