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Manhã de segunda

Nada melhor do que iniciar um dia tórrido de verão catando cocô de cachorro – montes de cocô de cachorro – no meio do matagal no qual se transformou a grama do seu jardim. Não há coisa melhor.

Especialmente porque você fica tão concentrado em fazer com que as bolinhas mais secas não saltem em alavanca para seu rosto, nem com que os excrementos mais frescos se espalhem pelas gramínias – o que torna praticamente impossível o recolhimento -, que não vê nada da paisagem bucólica ao redor.

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Saideira

Última semana na escola. Cometi alguns erros que valem pontuar para outros novatos não irem pela mesma avenida:

1. nunca divulgue as médias dos alunos.
Não tenha pena daquela carinha pidona. Tirando quando o cidadão está em maus lençóis – neste caso, mostrar a quantas anda as notas dele, lado a lado, servirá para condicioná-lo a fazer tudo o que for ordenado, em termos de recuperação -, é uma péssima ideia. Ele acha que, por estar passado, não deve mais nada a ninguém, e continua vindo à escola apenas para badernar.

2. nunca ceda à frase “ninguém tá dando matéria, professora”.
Enrolação. É melhor continuar passando matéria, atividades e etc, como se nada especial estivesse acontecendo. Cheque com os outros professores a veracidade da informação, com mais de um. E, claro, não mostre as médias. Diga: ainda não fiz. Ou, se não consegue mentir, “esqueça” o diário em casa.

3. garanta a televisão.
Especialmente se só há uma em todo o colégio. Passe filmes. Não entretém todo mundo, mas pelo menos aqueles que querem assistir vão ficar brigando por silêncio, e você poupa sua garganta.
Lembre-se: há outros professores no colégio tendo a mesma ideia. Então, não durma no ponto.

4. leve algo para fazer.
Quando a coisa não tiver mais solução – não há tevê disponível, você já passou as médias inadvertidamente, e estão todos passados porque você é um coração mole que faz provas facílimas – ocupe-se. É melhor do que ficar olhando o caos desesperadamente, ou tentar controlá-lo até o autoaniquilamento. Leve um livro para ler – isso às vezes inspira umas visitas à biblioteca, o que é sempre bom. Ou um trabalho portátil. E reze para que não resolvam puxar conversa com você ou disputar algo, aos gritos ou aos socos, praticamente em cima de sua mesa.

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O meu herói

Propaganda sueca interativa. Pus meu maridão como o herói do mundo.

No final dá para modificar do jeito que quiser.

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Direcionando resultados

Não é porque perdemos. Não é de graça que a torcida do Corínthians tem o apelido de Fiel.
É o modo induzido como perdemos.

Não sei quem comprou quem ali – afinal, o Fla tinha que vencer para que os Bambis ficassem no chão e longe do prêmio -, mas tem coisas que precisam de um limite.

A começar, a Globo, não coincidentemente uma emissora carioca, é claramente a favor do Flamengo, e nesta porcaria de cidade não passa jogo do Corínthians se este não estiver jogando com
a) algum time local
b) algum time do Sul
c) algum time carioca.

Se tivesse alguma emissora que não estivesse vinculada a uma dessas alternativas, teria mudado de canal.

As cenas eram todas focadas na torcida rubronegra. Quando entrou o torcedor alvinegro irado, “curiosamente” as câmeras só filmaram as caras e bocas dos rubronegros fora do campo. Como se a reação deles fosse mais interessante.

O juiz deu cartões amarelos a rodo para um grupo de corinthianos que só fazia reclamar – e que jogador não faz isso? -, mas para os flameguistas que davam rasteira, empurravam e o resto… necas. Até dava falta, mas nenhum cartão.

Quando ele deu um pro Petkovic, achei que estivesse delirando.

E aquele derradeiro pênalti? O que foi aquilo?
Se eu fosse o Felipão, teria cruzado os braços e me encostado na trave. Não se defende bola dada.

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A união faz a força

Pensei que ao menos poderia ter levado um livro comigo, caso soubesse que a 82 simplesmente não me deixaria dar aula.
O melhor dos motins: a indiferença.
Não adiantou falar, não adiantou gritar, não adiantou escrever no quadro, não adiantou nada.
Cheguei a sair da sala para dar um rolê – e notaram?
Duvido.
Chegou uma hora em que percebi que eu era a minoria, a parte fraca. Sentei, guardei o material e fiquei lamentando não ter um livro para me distrair da vontade de chorar.
Até que uma aluna – Mabele*, abençoada garota – sentou-se à minha frente com um sorriso sondador (imagino que tenha ficado com dó de mim) e disse:
- Vim incomodar a professora.
Passamos o restante da aula (eram dois tempos) conversando sobre assuntos banais: ela me fez rir e eu a fiz rir.
Certamente há um lugarzinho só para ela no Lar dos Benquistos.

*fictício

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Tá chegando o fim de ano

Os alunos estão mais agitados do que o costume (parece incrível, mas o nível de agitação térmica das moléculas deles vai a números impressionantes). O calor aumentou e a disposição diminuiu. Para todos, inclusive para mim. Vejo-me a cada dia mais estressada, pronta para ter um treco de raiva.

Ainda tenho que aturar a arrogância juvenil. Esses dias um da 81 veio e me disse:
- Fessora, semana que vem não venho mais.
Arregalei:
- Como assim não vens mais?
E ele, com um sorriso superior:
- Eu já tô passado.
Eu retruquei:
- É mesmo? E a prova que vou dar na semana que vem? Como é que fica?
Ele simplesmente sacudiu os ombros e fez cara de “tô nem ligando”. Insisti:
- Armando*, presta atenção, querido (eu uso “querido” quando quero xingar); mesmo que estejas bem de nota, se tiveres um zero na prova da semana que vem, tua média vai baixar consideravelmente, e aí, quem diz que serás liberado?

A escola tem a política de dispensar os melhores alunos antes de acabar o ano letivo, para dar chance, segundo dizem, de os piores melhorarem suas médias antes de tudo acabar. O problema é que os diabretes já conhecem a prática, e aí têm plena convicção de que serão “os escolhidos” e não querem fazer nada, ou simplesmente abandonam tudo, como o caso desse Armando.
Ele não me deu bola, aliás. Essa semana não veio, como prometeu.

Ainda tem outros que, mesmo não debandando antes do tempo, tentam me convencer de que não adianta mais passar matéria:
- Faltam só cinco dias de aula, fessora…
- Que cinco dias, Ciro*? Tás viajando? As aulas vão até 18 de dezembro!
- Mas não pra gente, fessora. A gente vai ser liberado, espera só.
- Ok, enquanto isso, vou dando aula pra quem vai ficar até dia 18, tá bom?

Afe!!!
Ah, e ainda tem os prazos!!!
Até dia 27, preciso passar as médias das oitavas, tudo a lápis, só pra ver quem será liberado antes. Até aí, tudo bem. O problema é que tenho 1 nota pendente em uma das oitavas, e essa nota não estará pronta no dia 27. Quero só ver no que vai dar.
Aliás, o boletim tem tanta cara de documento que dá até medo de preencher.

*nome fictício

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Baderna, pouco-caso e malandragem

As excelências discentes do Ensino Fundamental.

Hoje levei uma bolsa cheia de plantas despadaçadas, para que os alunos da 51 visualizassem os tipos de caules sobre os quais falei a semana toda. Aula no laboratório, mudança de ares: escrevi no quadro o que haveria, e o resultado foi uma gritaria ensandecida – de alegria.
Parecia promissor nos primeiros minutos de aula: eles até que estavam curiosos com o que eu ia tirando da bolsa.
Mas na hora de botar os miolinhos para funcionar… Deus do Céu. Uma zoeira, uma gritaria, um chama-chama, saímos de lá zonzas – eu e a professora do laboratório. Ao menos, a maioria fez o roteiro.

Na 61, lá vou eu carregando o trambolho do video cassete (sim, o do VHS). Levo o dito-cujo porque a escola não tem VHS player, apenas DVD player, mas não tem o material em DVD, só em VHS. E eu queria mostrar a diversidade de anfíbios para aqueles ingratos debochados, que, além de não darem a mínima para o vídeo, ainda quiseram ver desenho na minha aula!!!
E quando rugi de fúria, um dos mais aplicados veio me explicar que “sabe o que é, fessora, a gente não tá acostumado com filmes tão velhos.”
Repliquei:
- O filme que tem aqui é o mesmo que tem em DVD. Só a mídia que é diferente.
- Mesmo assim, fessora…
Saí de lá ventando.

E agora, corrigindo as recuperações das provas da 82, com o que me deparo???
Dois rapazes “fizeram” a prova com letras que não são deles, mas de meninas. Até a folha do caderno é rosa com borboletinhas!!!!
Quem que é trouxa?!?!

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Abaixo às árvores?!

Achei muito descuidada uma reportagem da Revista Galileu do mês de outubro. Sob o título “A queda das certezas” – uma chamada que me atraiu rapidamente para a compra da mesma -, a reportagem discorria sobre onze aspectos que põem em cheque algumas das nossas convicções. A oitava é: Árvores poluem e aquecem o planeta.

Até aí, ok, eu já sabia disso. O problema é o modo como eles jogam a afirmação como se fosse qualquer tipo de árvore, ou, pior, todas elas. Ainda dão a entender que desmatar é apenas um “ato impopular”, e que o ideal é deixar as árvores “morrer e ser substituídas por espécies menos poluidoras, como pinheiros e acácias”.

Quem disse isso? Um tal biólogo Mark Potosnak. Provavelmente o cidadão vive em regiões temperadas, onde Pinheiros e Acácias são espécies nativas. Dar essa informação no Brasil, onde já se tem o hábito infeliz de se tirar espécies nativas para pôr no lugar palmeiras e eucaliptos, a la Niemeyer – tão badalado velhinho, que ama detonar toda a vetegetação em torno de suas “obras de arte” faraônicas a fim de não “competir” com os monolitos brilhantes e sem sentido arquitetônico – é pedir para acelerar a destruição das matas densas e úmidas, e ainda dar desculpas às oligarquias madeireiras.

E mais: a árvore não é sozinha. Todo mundo sempre parece se esquecer de que nela e dela vivem centenas de outras espécies, que vão desde outras plantas a animais vertebrados. Dando cabo numa, alimenta-se uma rede de destruição.

Fico pasma que uma revista que se pretende de divulgação científica dê uma informação tão descontextualizada e fragmentada assim.

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Encruzilhada

Chega um ponto na vida em que a gente precisa tomar decisões. Tá, nenhuma novidade nisso.
A questão, no fim, é posta de um jeito um bocado simplista. O caminho tá lotado desses pontos, e cada um deles mostra uma penca de opções, e a gente fica neurótico tentando vislumbrar qual a melhor.

Por exemplo: estou dando aulas, certo? Anda sendo um saco, porque parece esforço gasto à tôa. Não acho, pelo menos, que três, quatro alunos prestando atenção, contra vinte e tantos arruaçando, seja sinônimo de sucesso. Enfim, enquanto estou dando aulas, gastando mó tempão preparando assunto, organizando, corrigindo, gritando e me lamentando, não tenho muito tempo para me dedicar, por exemplo, ao concurso para a Universidade Federal da Fronteira do Sul, cuja prova é neste final de semana e para a qual nada estudei (e que daria um gordo aumento no meu salário como professora universitária), nem trabalhando nos meus livros, nem na minha empresa de correção de textos, nem como acessora de artigos acadêmicos – nem como nada que de fato me importa e interessa, mas que mal me traz dinheiro.

Não que a docência traga muito. Mas pelo menos é o pingado do mês.

Dá vontade de dizer “tchau, galera” na escola – em pleno final de ano, pré-entrega das notas, uau, ia ser um escândalo – e mergulhar nas coisas que me fazem bem, embora não forrem minha conta.

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A autoridade

A baderna na 51 depois do meu pequeno espetáculo continuou. Acabei chamando a Maria, que chamou a Anabel, que chamou a Margareth.*
Resultado 1: segundo sermão consecutivo na 51 – o primeiro foi resultante das minhas lágrimas descontroladas, das quais não me orgulho nem um pouco -, sermão que durou a aula inteirinha.
Resultado 2: segunda aula perdida. Atraso total da matéria. Parece que nunca mais vou chegar nos órgãos reprodutivos das plantas.

Isso que a Anabel, depois que a Margareth saiu, prometeu voltar na aula seguinte.

E o fez. Voltou e ficou ali, de marechal, enquanto eu dava aula.
A diferença foi tangível. A turma ficou comportadinha, fez tudo o que eu disse para fazer sem reclamações nem protestos.
Não me incomodei tanto – após levar uns dez minutos para me acostumar – com a presença da Anabel, já que gosto dela, e contribuiu para a aula avançar consideravelmente.

A questão é: como eu faço para conseguir o mesmo efeito???

*Nomes ficcionais para a senhora que cuida do xerox e das chaves, a supervisora pedagógica e a diretora.

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